não engole cospe. não engole cospe. não entala porta de entrada pra dentro de si. território meu meu porta fechada boca cerrada sorriso que anuncia o bote sorriso que anuncia a dentada tosse. não digere. não digere. oca. nada no teu corpo nasceu para digerir culpa desculpa ausência carência ciúme culpa medo medo medo não engole não se engole ninguém bota na boca tamanho objeto. cospe vê se cospe desencosta aproveita y pula abismo sem janela lembra? lembra garganta sem catarro sem tosse? não engole não engasga tosse. lembra do abismo profundo bonito garganta infinita do escuro da lama preta fértil do corpo nu vestido de nanã do começo da primeira primeira invisível porque escuro invisível porque primeira sem olhos outros pra olhar. era ela o abismo e a lama.

[feito na oficina da Mayara Árvore no encontro Juntá, Sã Luiza da Paraitinga, junho 2019)

zine utopias lésbicas

ACORDEI COM O SOL NA JANELA, vou como de costume assar a massa que deixei crescendo durante a noite. cuando as otras acordarem a casa terá cheiro de pão.
ainda estou semidespida, o calor desse verão é muito forte – eu adoro.
a lembrança que a nudez pode se tornar um problema é distante, como uma pulga atrás da orelha de quem aprendeu a viver com medo.
desaprender leva tempo, mas é mais fácil aqui: onde esse medo não existe concretamente. as meninas que aqui crescem não estão mutiladas pelo medo: jamais carregarão cicatrizes como as minhas y essa certeza me cura.
aos poucos as mulheres acordam. cada uma ao seu tempo. dormimos juntas quando queremos, mas todas têm seu espaço – aprendemos solitude de una maneira doce – o único quarto coletivo fixamente é o das crianças, cuidam-se entre si y se divertem mais em alcateia.
o café da manhã aos poucos se torna una roda animada, umas contam o sonho que tiveram, otras ajudam a interpretar, lembramos de histórias y mitos que ajudam a entender as simbologias, contamos histórias às crias y unas às otras. aos poucos vamos saindo da mesa y geralmente só sobram as mais falantes.
eu peguei o hábito de andar de bicicleta ou à cavalo depois do café da manhã. sentir o vento correr em meu rosto nesse descampado sobre pedras tão velhas,
cuidar do meu silêncio,
tomar sol.

UTOPIAS LÉSBICAS

a zine completa para baixar aqui

ode ao ódio III

o nome daquele sentimento estranho de estar com uma pedra no sapato, mas não parar pra tirar porque se está atrasada pela quarta vez essa semana tornando a manhã dessa quinta-feira já longa demais, contando que ainda são 7h19, é capitalismo.
e já não bastasse ser uma segunda-feira de 16° e chuva, ainda tenho que andar rápido com meu tênis duvidoso meio ao medo de escorregar em alguma tampa de metal e cair, já que estou em cima da hora pra chegar no trabalho.
o nome daquele sentimento estranho de detestar botar seu dedo para uma luz vermelha ler sua digital e então recolher um papel que diz que você não foi rápida o suficiente é capitalismo.

[desenho: eu subindo o último beco antes de chegar no portão do prédio onde trabalho, na minha mão o celular acusa: 8h06min]

o nome daquele sentimento estranho que tantas vezes te impede de curtir o final de um domingo com Sol já que se está adiantando o pensamento doloroso de que amanhã é segunda-feira, é capitalismo.
e todas as vezes que você acordou num sábado correndo achando que estava atrasada e/ou acordou numa terça-feira achando que era domingo e desligou o despertador tranquila com meio sorriso no rosto, foram armadilhas da sua mente, cansada e acostumada com uma vida regrada ao relógio-despertador.

odeio despertadores na mesma proporção que odeio o capitalismo
odeio o capitalismo na mesma proporção que odeio acordar cedo todo dia
odeio acordar cedo todo dia na mesma proporção que odeio ponto eletrônico
odeio ponto eletrônico na mesma proporção que odeio o patriarcado.

alguém escreveu em algum muro de algum lugar e galeano leu: eu não quero sobreviver, eu quero viver.

ode ao ódio III

viva

se eu estivesse viva
eu te chamaria pra fazer qualquer coisa
nessa lua escorpiana.
descobriria seu gosto
e como você respira comigo perto

se viva eu estivesse
se eu já me pertencesse
cabeça-coração-pulmão

descobriria como respiro sob seu cheiro
e como gosto de passar a língua na sua

se eu estivesse viva.
morrer é metade do caminho
nesse viver cíclico-mulher
morrer é o único caminho de limpeza nesse patriarcado.

quem sabe renasço lua nova.

[de uns meses atrás]

coma arroz tenha fé nas mulheres – fran winant

Coma arroz tenha fé nas mulheres
O que eu não sei
Eu ainda posso aprender
Se estou sozinha agora
Estarei com elas mais tarde
Se estou fraca agora
Posso me tornar forte
Lentamente, lentamente
Se aprender, posso ensinar as outras
Se as outras aprenderem antes
Eu devo acreditar
Que elas voltarão e me ensinarão
Elas não vão embora do país com seu conhecimento
E me enviarão uma carta em algum momento
Devemos estudar todas as nossas vidas
Mulheres vindas de mulheres
Indo para mulheres
Tentando fazer tudo que pudermos
Com as palavras
Em seguida, tentar trabalhar com ferramentas
Ou com nossos corpos
Tentando ficar o tempo que for preciso
Lendo livros quando não há professores
Ou quando eles estão muito distantes
Ensinando a nós mesmas
Imaginando outras lutando
Devo acreditar que nós estaremos juntas
E construir confiança o suficiente
Para que quando eu precise lutar sozinha
Eu saiba que há irmãs que
Ajudariam se soubessem
Irmãs que viriam
Para me apoiar mais tarde

Mulheres exigindo liberdade
Cada uma com suas necessidades
Nossa vida completamente dilacerada
Pela velha sociedade
Nunca nos dando o amor ou o trabalho
Ou a força ou a segurança ou a informação
Que nos poderia ser útil
Nunca ajudadas pelas Instituições
Que nos aprisionam
Quando precisamos de cuidados médicos
Somos abatidas
Quando precisamos da polícia
Somos insultadas e ignoradas
Quando precisamos de pais e mães
Encontramos robôs
Treinados para nos manter em nossos lugares
Quando precisamos de trabalho
Nos dizem para nos tornarmos parte do sistema que nos destrói
Alimento que nutre
Medicina que cura
Canções que nos lembram de nós mesmas
E nos fazem querer continuar com o que importa para nós

Vamos sair de novo
Encontrando as mulheres que saem pela primeira vez
Sabendo que esse amor faz uma boa diferença em nós
Afirmando uma vida contínua com mulheres
Devemos ser amantes médicas soldadas
Artistas mecânicas agricultoras
Todas em nossas vidas
Ondas de mulheres
Tremendo de amor e raiva

Cantando, nós devemos enfurecer
Beijando, virar e quebrar a velha sociedade
Sem nos tornarmos os nomes que elogiam
As mentes que pagam

Coma arroz tenha fé nas mulheres
O que eu não sei agora
Ainda posso aprender
Lentamente, lentamente
Seu eu aprender posso ensinar as outras
Se as outras aprendem antes
Eu devo acreditar
Que elas voltarão e me ensinarão

fran winant – Tradução por Marcella

silêncio

silêncio.

esbaforida bagunçada romântica sem cura. esbarra na própria dor — e às vezes chuta

às vezes o que queima em mim é insuportável
é esse sol em carneiro que me faz dar cabeçada y cabeçada y cabeçada.

murro em ponta de faca se torna mantra
mas eu não quero.

amor próprio autocuidado autoestima me rodeiam, me tocam e acarinham, mas não penetram essa cabeça-pedra que tenho me tornado desde não sei mais quando.
autodepreciativa.

na vontade de sumir
silencio.

tá escrito respira na parede. mais um mais um mais um conta até 27. não fala na hora.

paz. quem criou a paz foi um homem branco pique esse deus que cês acreditam e nesse patriarcado nós não teremos paz.

no máximo silêncio. e com tempo contado

1

beijo suas costas
colchão de solteiro boa noite meu amor
se vira
me beija e me beija e sua buceta molhada confirma minha mão
é linda. é linda é linda
goza gostoso em mim
“eu te amo”.

são minhas pernas que formigam. dorme quente e úmida no meu peito. eu não durmo.

notas: AMARASMULHERES

depois (depois?) de processo de cura primeiro, busco olhar pela janela. respirar o vento e o pólen que elas exalam. sentir seus cheiros. olhar. nesse primeiro passar olhar é o único horizonte com o qual me preocupo.

— pra engolir a ansiedade que nasceu como corpo estranho e se tornou meu corpo. os últimos tempos foram cinza e a única promessa que fui capaz de fazer a mim mesma é que do que o patriarcado fez de mim, faria asa. —

olho pela janela. o vento que bate na cara é bom e forte e frio como tem que ser.

amar as mulheres tem sido uma mulher. tem sido uma casa também, tem sido quatro mulheres. tem sido –e pra mim é como se tivesse sido sempre—uma mulher vermelha.

amar as mulheres tem sido acompanhar de longe-perto uma mulher que amo desde que me entendo por gente voltar a se amar e se cuidar depois de um período turbulento.

amar as mulheres tem sido olhar pra mim também. lesbianizar porque me amo e amo meu corpo-mulher.

me foi ensinado um amor antimulher muito eficaz, é certo. a gaiola da rivalidade feminina se anuncia sobre minha cabeça mais vezes do que eu gostaria e suporto. diversas vezes ela se acomoda ao meu redor. meu esforço tem sido e será me debater até sair.

amar as mulheres tem sido respirar quando falta o ar. bater asas é devir.

MANUAL DA MASTURBAÇÃO LESBOFEMINISTA

SOBRE O LUGAR:
Busque um lugar privado
Mesmo que nós mulheres estejamos historicamente excluídas dos espaços públicos, isso não significa que tenhamos privacidade. A privacidade segue sendo um luxo.
Escolha um lugar onde não será interrompida por requerimentos de cuidado, limpeza, alimentação, suporte emocional ou reforço de egos masculinos.
Um lugar privado não implica estar sozinha necessariamente. Você pode compartilhar o espaço com outras mulheres com quem se sinta livre e bonita.

SOBRE O INÍCIO DA SESSÃO MASTURBATÓRIA:
Reconheça o terreno.
Ainda que nosso corpo seja capital e força de trabalho não remunerado para um sistema inteiro, mesmo que se tenha escrito tanto sobre nossa anatomia e as formas corretas de prazer que nos correspondem, muitas seguimos sendo estrangeiras em nosso corpo.
Por isso, comece por reconhecer-se. Aprenda-se, delineia suas formas, escolha suas partes favoritas, detenha-se nas partes da pele que temos aprendido a odiar, acaricie, apaixone-se, faça dessas imperfeições fonte de prazer.
Na masturbação, assim como no feminismo, a busca parte dos incômodos e das margens.
Seduza-se.
Diga-se as coisas que nunca disse, diga-as também a suas companheiras, a suas amigas, devolva a si mesma o privilégio, até então masculino, de opinar sobre nós mesmas.
Vista-se e dispa-se só para seu prazer. Use os acessórios que nunca se atreveu usar, coloque cuecas sob o vestido de noiva, masturbe-se vestindo seu uniforme de trabalho.
Na masturbação, como no feminismo, nenhuma fantasia é ilegítima*

SOBRE A TÉCNICA E O USO DE ACESSÓRIOS:
Use o que tiver “a mão”.
Há mulheres que curtem se estimular com seus próprios dedos, diretamente nos mamilos e no clitóris, no clitóris e nos mamilos, no clitóris e mamilos simultaneamente, no ânus, depois nos mamilos, depois no clitóris, em ordem inversa ou aleatoriamente e assim múltiplas combinações.
Há mulheres que gostam de roçar as coxas, o que permite, por exemplo, intervir no aborrecimento heterocêntrico na fila do supermercado ou no masculinista silêncio de uma biblioteca, com nosso prazer masturbatório.
Há mulheres que desfrutam esfregar a virilha em objetos brandos e consistentes como travesseiros, pelúcias, almofadas, etc. Se recomenda que o objeto usado não seja lavado depois: o perfume do orgasmo autogestionado serve de amuleto.
Há mulheres que gostam de usar elementos masturbadores como vibradores clitorianos, dildos de muitas cores e formas, frutas não maduras, verduras cruas, elementos de cozinha, brinquedos de crianças. O uso de qualquer um desses objetos não descarta as outras formas de masturbação, simplesmente diversifica as fontes de prazer.
Há mulheres que gostam de esfregar seu clitóris com as coxas, com a bunda, os braços, as costas, a boca ou os lábios da vulva de outra mulher. Se isso soa muito lésbico é porque você entendeu: sim, a masturbação também é sexo lésbico.
Essas diversas formas podem coexistir ou não em uma mesma sessão masturbatória, mas todas, inclusive as que incluem elementos penetrativos, eliminam as moléstias que são consequência da clássica relação de coito, ou seja: o orgasmo não se finge, não precisamos adequar os tempos nem as posições requeridas por um macho ególatra e o melhor, se obtém prazer sem a pantomima humilhante do amor heterossexual.
Múltiplos corpos, múltiplas maneiras, orgasmos múltiplos. Encontre seu modo, compartilhe experiências, prove.
Na masturbação, como no feminismo, cada mulher é teoria, prática e nova fonte de conhecimento.

SOBRE O ORGASMO MASTURBATÓRIO:
Explosivo, duradouro, intenso, autônomo, múltiplo.
Não exija nunca nada menos.
Sobre os benefícios extra orgásmicos da masturbação:
1. Analgésico:
Se está menstruando e tem dores. Masturbe-se.
Se tem dor de cabeça, pescoço ou nas costas. Masturbe-se.
2. Relaxamento:
Se está ansiosa ou tensa. Masturbe-se.
Se não consegue dormir. Masturbe-se.
3. Melhora no sistema muscular/esquelético.
Se está praticando autodefesa feminista e quer tonificar os braços. Masturbe-se.
4. Comemoração:
Se está feliz e quer celebrar com suas companheiras de coletiva. Masturbe-se.
5. Fluidez de movimento:
Se está fazendo aula de dança e um passo não está saindo bom. Masturbe-se e tente de novo.
6. Reforço em tomar decisões:
Se está pensando em deixar seu namorado e ir viajar com uma mina que conheceu semana passada, mas não sabe como dizer a ele. Masturbe-se. O orgasmo autogestionado te dará confiança.
7. Concentração:
Se está escrevendo um artigo, um status de facebook ou um roteiro de programa de rádio e sente que não consegue terminar. Masturbe-se, as ideias chegarão com o orgasmo.

SOBRE OS MITOS A RESPEITO DA MASTURBAÇÃO:
1. Pelos na palma das mãos.
Mesmo que pratique com regularidade, a masturbação lesbofeminista não produz crescimento de pelos nas mãos, mas com certeza aprenderá a curtir muito mais qualquer outro pelo de seu corpo.
2. Ficar cega:
Se praticada com regularidade, a masturbação lesbofeminista te deixará cega à presença de machos com delírios de ator pornô. Simplesmente deixará de vê-los, e também de ouvi-los.
3. Alucinações:
Se praticada com regularidade, a masturbação lesbofeminista te fará ver os erotizantes e lindos corpos das mulheres, inclusive o seu, de uma maneira que nunca viu antes.
4. Cansaço e fadiga:
Efetivamente, se praticada com regularidade, a masturbação lesbofeminista te deixará sem energia disponível para realizar os trabalhos não remunerados que te exige o macho da vez.

SOBRE A RELAÇÃO COM O PATRIARCADO:
Cada orgasmo autogestionado é prazer não-reprodutivo que corrói o sistema patriarcal.
Cada orgasmo autogestionado é um tempo que não trabalhamos para o capitalismo.
Cada orgasmo autogestionado aborta um pedaço da mulher passiva e complacente que não queremos ser.
Cada orgasmo autogestionado nos faz mais fortes, mais intensas e mais lésbicas.

RECOMENDAÇÕES FINAIS:
É tempo de lesbianizar-se.
A masturbação é um bom começo.
O prazer das mulheres ultrapassa os limites da linguagem e da ciência patriarcal. Portanto, deixamos esse manual para desmanche, extensão, leitura, reescrita, tradução, musicalização, etc. Que nosso prazer, nomeemos entre todas.

Texto lido no programa de rádio sapatão La Arepa Chora. Original aqui http://www.pikaramagazine.com/2015/03/manual-de-la-masturbacion-lesbofeminista/

________________
*NT. Acredito que nossa erótica é construída sob o olhar do patriarcado, então muitas vezes internalizamos misoginia, degradação, amor romântico, falocentrismo, etc. logo, discordo que “nenhuma é ilegítima”, não por me colocar no lugar de juíza, mas porque acredito que devemos ser autocríticas em nossa existência lésbica no patriarcado.

mas se tem uma coisa que faço bem desde sempre é amar.

-a mulher está domesticada-

amar sempre foi uma coisa que me coube
amar com o corpo todo, cuidar, acarinhar, me doar
eu aprendi um amor antimulher muito eficaz
um amor que dá razão à vida da mulher, mas que nesse caminho mina sua possibilidade de vida.

-a mulher está ilhada em si mesma-

nadar contra a maré quando você é a ilha. nadar contra a maré quando você é o mar. nadar contra a maré quando você é a maré.

-a mulher está cimentada-

deixar de amar é devir
é sobreviver
respirar ar puro quando se é toda pulmão — se vive disso ou se mata, na mesma proporção.

eu tenho 25 anos e sei amar.
eu não sei ser livre por muito tempo
eu não aprendi a zanzar

-a mulher está viva em algum lugar de dentro, histérica-